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quarta-feira, 9 de março de 2011

4AD – 1987 / Dead Can Dance

Entre os dias 01 de Abril de 2010 e 01 de Abril de 2011, a editora independente britânica 4AD celebra três décadas de existência. Até ao próximo dia 01 de Abril ainda a passagem por edições fundamentais da casa sediada em Alma Road na cidade de Londres
























A Natureza é um templo onde vivos pilares
Pronunciam por vezes palavras ambíguas
O Homem passa por ela entre bosques de símbolos
Que o vão observando em íntimos olhares


Possuidor de riquíssimos ornamentos orquestrais, este trabalho representa uma ampliação da ambição sónica por parte da banda, ao incluir numerosas linhas classicistas através de instrumentos até então pouco ou nada utilizados pelos Dead Can Dance. Um poderoso arsenal percussionista (bombos, gongos, pandeiretas e tambores militares), uma elegante secção de cordas (violinos, violoncelos e viola d'arco) e uma fundamental presença de metais e sopros (trombones, tuba, trompete, oboé).
Para além de outros múltiplos instrumentos tocados pela dupla Brendan Perry e Lisa Gerrard, encontram-se numerosas participações de outros músicos: Alison Harling, Emlyn Singleton, Piero Gasparini, Tony Gamage, Gus Ferguson, Mark Gerrard, Richard Avison, John Singleton, Andrew Claxton, Ruth Watson e Peter Ulrich.
Carregado de nocturnidade, «Within the Realm of a Dying Sun» flutua num inquietante ambiente atmosférico, evocando o mistério do tempo e do silêncio. Há globalmente neste registo uma envolvente e invulgar sensação de intemporalidade, criadora de espaço e vastidão.
O mais místico álbum dos Dead Can Dance é também o menos bem compreendido.
Pouco compreendido porque despertou ambiguidades ainda hoje difíceis de ultrapassar. Galgou fronteiras de outros territórios culturais e despertou outros ouvidos que habitavam em diferentes latitudes sonoras, confundindo muitas das linhas musicais separadoras, até então mais hermeticamente definidas.
Originalmente editado em vinil no formato LP, «Within the Realm of a Dying Sun» está dividido em duas partes. O lado A com a predominância de Brendan Perry, o lado B com o protagonismo entregue a Lisa Gerrard. Vocalmente Brendan supera-se em relação aos registos anteriores da banda (especialmente em comparação com o primeiro álbum, editado em 1984), alcançando um patamar evolutivo surpreendente. O timbre barítono médio/grave de Brendan Perry situa-se algures entre Lee Hazlewood e Frank Sinatra. Quanto a Lisa Gerrard, vocalmente manteve as texturas já anteriormente demonstradas nos dois álbuns antecedentes, confirmando-se mais uma vez aqui a propriedade de uma larguíssima cintura de voz capaz de soberbos contrastes.
Os textos compostos por Perry e Gerrard redescobrem a inspiração em Charles Baudelaire e têm como temática central o existencialismo e os multifacetados territórios da irracionalidade ancestral.
Nunca a variada obra dos Dead Can Dance atingiu tamanha dimensão surreal como neste trabalho de 1987.

Within the Realm of a Dying Sun
O alinhamento original:

Lado A:

1. "Anywhere Out of the World" – 5:08
2. "Windfall" – 3:30
3. "In the Wake of Adversity" – 4:14
4. "Xavier" – 6:16

Lado B:

5. "Dawn of the Iconoclast" – 2:06
6. "Cantara" – 5:58
7. "Summoning of the Muse" – 4:55
8. "Persephone (the Gathering of Flowers)" – 6:36
























A fotografia
A capa do álbum «Within the Realm of a Dying Sun» causou impacto e especulou-se muito sobre a sua origem. Seria uma montagem? Uma estátua propositadamente ali colocada? Um jazigo verdadeiro? Onde? A perturbação durou anos até ser do domínio público excepto, é claro, para quem conhecia o local. É uma fotografia verdadeira do jazigo de família do cientista e político francês François-Vincent Raspail (25 Janeiro, 1794 – 07 Janeiro, 1878), tirada em Paris, no famoso Cemitério Père-Lachaise. Desde a publicação deste álbum dos Dead Can Dance que o túmulo da família Raspail passou a ser mais procurado, devido à imensa curiosidade que a capa do disco suscita. Também houve quem adquirisse o disco pela atracção da imagem da capa. A fotografia da capa do disco foi tirada por Bernard Oudin.

São raras as gravações de imagens contendo temas do álbum «Within the Realm of a Dying Sun», apesar de o grupo ter realizado uma digressão europeia entre 1987 e 1988 onde quase todo o reportório do disco foi interpretado em palco.
Ficamos com as imagens da última vez que Lisa Gerrard interpretou "Cantara" enquanto duo com Brendan Perry e restantes membros dos Dead Can Dance. Foi no palco do já extinto Mayfair Theatre em Santa Mónica, Califórnia, EUA.

Dead Can Dance – "Cantara" (1987)
Versão ao vivo em 1994, incluída no álbum «Toward The Within»:



No Reino do Sol Poente
É o título de uma das emissões da série do programa de Rádio «Como no Cinema» exclusivamente preenchida com o álbum «Within the Realm of a Dying Sun», incluindo ainda parte do tema instrumental "The Protagonist" que os Dead Can Dance gravaram nas mesmas sessões do álbum, mas que não consta no alinhamento final. "The Protagonist" (tema instrumental com mais de oito minutos de duração) foi editado unicamente na compilação «Lonely Is An Eyesore», registo de vários artistas com que a editora 4AD assinalou o seu sétimo aniversário, no mesmo ano em que «Within the Realm of a Dying Sun» foi editado.
«Within the Realm of a Dying Sun» foi gravado em Londres, na Woodbine Street Recording Studios, entre Abril e Maio de 1987 e editado no dia 27 de Julho do mesmo ano.
Teve produção de Brendan Perry (também responsável pelo design); Lisa Gerrard e John A. Rivers.
A engenharia de som esteve a cargo de Francisco Cabeza.

Em prolongados ecos, confusos, ao longe
Numa só tenebrosa e profunda unidade
Tão vasta como a noite e como a claridade
Correspondem-se as cores, os aromas e os sons


Dead Can Dance – “The Protagonist” (1987)

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