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domingo, 10 de agosto de 2014

Pensando a propósito da IF de Agosto 2014


















Várias pessoas me perguntam sobre o motivo de não publicar mais edições da ÍNTIMA FRACÇÃO, ou, pelo menos, com mais regularidade. Algumas pedem mesmo insistentemente para que o faça. Com o tempo que demorei a produzir esta edição mais recente, fui reflectindo sobre o assunto. Algumas conclusões :
- se bem que nunca tenha vivido exclusivamente da Íntima Fracção, tive a felicidade de, durante cerca de 25 dos 30 anos da sua existência, ter sido pago para a fazer. Não muito bem pago, mas durante muitos anos e em alguns momentos, pago de uma forma que considero de "bem pago". Com a passagem exclusiva para a distribuição online (a experiência Expresso online), só recebia pelos trabalhos que eram patrocinados, alguns deles, esses sim, muito bem pagos. Porque começo por aqui ? Pelo facto de que na minha vida se a ÍNTIMA FRACÇÃO foi já uma componente profissional determinante e durante muito tempo até a principal, ela deixou de o poder ser. Neste momento tento a todo o custo encontrar a minha própria forma de distribuição da IF e encontrar tempo para o fazer;
- se bem que a IF mantenha um ambiente semelhante ao longo dos anos e nunca tenha sido um simples alinhar de músicas, constato que a fiz evoluir num sentido que a torna cada vez mais distante de um programa de rádio e a aproxima, como nunca, de uma banda sonora. Não é uma mixtape, é mesmo um tipo próprio de narrativa sonora que tento desesperadamente controlar, mas não consigo;
- de facto, de cada vez que começo a trabalhar numa nova edição, os caminhos iniciais são logo tomados por várias encruzilhadas e as músicas, os sons, os ruídos e até as palavras (os textos são alterados vezes sem conta), desencadeiam a necessidade de avançar noutros sentidos. A este facto, junta-se a, digamos, exagerada memória que carrego comigo, parece-me, desde sempre. Músicas, paisagens sonoras, elementos isolados que me remetem para uma imensidão de momentos vividos, sabidos ou imaginados;
- assim, e porque sinto contraproducente uma reflexão mais profunda, a IF pulveriza-se numa série de curtas observações que me remetem cada vez mais para as imagens, como se me fosse impossível deter-me num fio condutor mais longo. São músicas que se sobrepõem a músicas, a sons, ruídos aparentemente perdidos, mas que para mim fazem todo o sentido;
- a certa altura, o conseguir conciliar todas estas curtas observações, torna-se um verdadeiro sofrimento. A constatação da impossibilidade de organizar o todo com as partes, conduz-me a um autêntico desespero operativo. Há uma exigência cada vez mais exigente, passe o pleonasmo, que poderia ter uma resolução se eu dispusesse (um verdadeiro "pretérito Imperfeito", notem !) de todo o tempo para criar a IF. Pior, mesmo tendo esse tempo, acredito que a solução final nunca seria a definitiva;
- surgiu então a ideia de trabalhar em pequenos sketchs sonoros que isolassem os núcleos que se elevam sobre a superfície normal do correr da criação. É a isto que estou disposto a dedicar-me, sem prejuízo de os juntar em ficheiros mais longos que mantenham o formato da "velha" ÍNTIMA FRACÇÃO;
- a isto acrescentarei os melhores esforços para encontrar uma solução real para a sua distribuição, a que juntarei ao primogénito SOM, textos e imagens (estáticas e em movimento), que aliás foram sempre da família;
- finalmente, todas as ideias e contribuições de "velhos" e novos ouvintes da ÍNTIMA FRACÇÃO, serão, neste momento, mais do que nunca bem recebidas e desesperadamente desejadas;
- agradeço a todos os que têm ajudado a mantê-la viva e activa, em particular a partir do momento em que ela foi pela primeira vez centrifugada da Rádio - meio em que me parece não existir hoje qualquer espaço para ela.

Abraço
Francisco Amaral

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