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sábado, 20 de novembro de 2010

4AD - 1986 / Le Mystère des Voix Bulgares






















Um inesperado e grande passo ao sexto ano de vida da 4AD. Em 1986, a editora independente que agora celebra 30 anos, aposta no tipo de catálogo ao qual viria a chamar-se pouco tempo depois de World Music. O novo conceito abraçado pioneiramente pela editora de Ivo Watts-Russell abriu fronteiras e alargou em muito os horizontes de um catálogo até aí muito inovador, sem dúvida, mas que não tinha ainda saído da orla alternativa. O carácter único destes sons trazidos ao ocidente pela primeira vez em 1975 aquando da descoberta/achamento por parte do suíço Marcel Cellier.
Dez anos mais tarde, o musicólogo viu os seus esforços compensados através de Peter Murphy, cujos argumentos e fascínio por estas vozes vindas da Búlgária convenceram com facilidade os critérios artísticos de um líder editorial muito aberto ao novo. Honra seja feita a Ivo Watts-Russell pela valia em reconhecer uma coisa boa à primeira vista. No caso, à primeira escuta destas vozes femininas invulgares e exóticas aos ouvidos ocidentais, tão ávidos de frescura auditiva.
O primeiro volume de «Le Mystère des Voix Bulgares» foi um êxito tremendo, aumentado ainda pela edição de um segundo volume dois anos mais tarde, em 1988.
Seguiu-se a mundialização e o reconhecimento planetário. As até então camponesas cantoras, largaram os campos de cultivo na Bulgária e correram mundo, soltando notas e toadas com uma perfeição magistral.















Para além de etno-musicólogo, músico (organista) e produtor discográfico, Marcel Cellier também foi um homem da Rádio. Durante 25 anos (1960-1985) foi realizador do programa «Do Mar Negro para o Báltico» na estação Westschweizer Radio. Também a Cellier se deve a descoberta do músico romeno Gheorghe Zamfir.
Melhor que ninguém, é o próprio Marcel Cellier que explica o Mistério das Vozes Búlgaras em anotações presentes no disco «Le Mystère des Voix Bulgares» (volume I) editado pela 4AD em 1986:

No canto, a voz humana é muito mais eloquente do que na fala. O povo búlgaro está consciente desta verdade e respeita a arte de cantar acima de todas as outras formas de expressão artística.
A sua sabedoria neste campo é resultado de mil anos que envolveram uma história de lágrimas e sofrimento, com as suas raízes em Bizâncio. As ramificações destas raízes prolongaram-se mais tarde na antiga e obscura civilização dos Trácios, cujo excepcional génio musical ficou célebre. Estas raízes perderam-se, por fim, na nascente do rio Trigradska, no qual Orfeu desceu ao mundo das sombras em busca de Euridice.
Na sua história milenar, os sons búlgaros trazem consigo "cicatrizes" duma evolução extremamente penosa, marcada pelos infernais cinco séculos de domínio Otomano. E foi desta forma que a arte vocal, a única forma de expressão livre do povo búlgaro, adquiriu a sua forma e capacidade evocativa.

(...)

Assim, eis aqui esta magnífica síntese, destinada apenas aos ouvidos mais interessados.
Através da mistura de elementos históricos fabulosos, desde a liturgia bizantina, a canção popular e os lamentos, até aos contos épicos e heróicos, conseguiu-se criar autênticas jóias. Além da melodia, do ritmo e da harmonia extraordinárias (presentes neste disco), há ainda o factor timbre. Esta ressonância vocal é característica das vozes "abertas non vibrato" das jovens raparigas provençais. Pois é nas aldeias e não na academia musical que o júri de Sófia escolhe as vozes que constituem os corpos "acapella" aqui representados. O trabalho de preparação deste disco foi uma tarefa difícil e minuciosa, pois estas jovens senhoras ignoram os rudimentos musicais, praticando uma aproximação intuitiva.
É com grande facilidade que estas raparigas ultrapassam os limites dos ensinamentos ministrados pelas nossas academias musicais. O que elas sabem é tudo resultado do seu "background": "melisma", "fiorittura" e "trill", assim como uma predilecção pelo segundo como um intervalo diafónico.
Sempre que estas mulheres orientam a sua intuição natural para a canção, usando o "second-full", metade, um quarto, e até mesmo um oitavo de tom às vezes "tremolo" fazem-no com uma exactidão desconcertante.
Uma das vozes aguenta a nota principal - tal como aquele som alto e contínuo duma gaita de foles - enquanto que as outras vozes "ondulam" a sua própria melodia, flutuando por cima do som-base da primeira voz, tentando-se aproximar dela o mais possível. O efeito da sua junção resulta numa cortante atonalidade que nada tem a ver com o nosso tradicional sistema harmónico ocidental.

(...)

Um trabalho de rara complexidade.
Um monge do venerável mosteiro de Rila, dedicou 12 anos da sua vida a desenhar cenas bíblicas numa cruz com a ponta dum alfinete à luz de vela, até que perdeu a vista.
Quando terminou aquela obra-prima ele disse que a perfeição só podia ser obtida à custa de muito sofrimento.
A evolução deste tesouro, que são os cânticos búlgaros, até atingir a sua perfeição foi submetida ao mesmo processo.

Beleza da perfeição!
Perfeição da beleza!

É entre estas duas exclamações que reside o mistério das vozes búlgaras.

Marcel Cellier
Traduzido do francês por Catherine Gaitte


Seguem-se imagens de há 20 anos num famoso programa de variedades da televisão norte-americana.
O coro tradicional búlgaro que gravou para a 4AD numa actuação ao vivo e sem rede num conjunto de três peças, sob a direcção da Professora Dora Hristova.
As duas primeiras são milenares: "Ergen Daido" (Canção de Schopsko) e "Polegnala E Todora" (Canção de Amor) tiveram alguma amplitude térmica na Rádio em Portugal de finais de 80. Lembro-me, por exemplo, de ouvir "Polegnala E Todora" na «Íntima Fracção» ainda nos tempos em que o programa de Rádio de Francisco Amaral esteve na RDP-Antena1. É o tema que encerra este primeiro de dois discos de «Le Mystère des Voix Bulgares» na 4AD.
A terceira peça "Oh Susanna" é uma brincadeira para americano ver.
Welcome to America!


Somaram-se nos anos sequentes os espectáculos a nível mundial, o estrelato, os Grammys, múltiplos outros prémios e inúmeras aclamações, para além de algumas misturas de gosto duvidoso – talvez demasiadas – com outros estilos de música ocidental, perdendo-se (não totalmente) alguma da pureza inicial.
A partir daqui foi o explorar comercial do filão. Até aos dias de hoje, que a par de alguma banalização, continua a dar frutos frescos.

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