Finalmente, a noite do encontro
Sentia-se no ar a ansiedade do que estava para vir. Vivia-se o prazer do ante-gozo
da consumação de uma longa espera. Todas as pessoas que acorreram à
Casa da Música na cidade do Porto, na passada quarta-feira, sabiam que –
acontecesse o que acontecesse – aquela noite não seria como as outras.
Na verdade, como nenhuma outra antes.
Para quem foi acompanhando os vídeos e as imagens publicadas na actual
digressão dos Dead Can Dance, iniciada em Agosto passado, as surpresas
não poderiam ser muitas e já sabia o que esperar.
A expectativa era no entanto muito grande, não propriamente pela
performance
inovadora em si, mas em ver e ouvir como seria realmente ao vivo, sem
filtros, sem ecrãs, sem outras imagens e outros sons que não as captadas
pelos nossos próprios olhos e ouvidos. Como soaria aquilo tudo em
palco, naquele cenário multicolor e poliglótico. Que sons transbordariam
dos instrumentos exóticos que acompanham aquela esotérica banda desde
sempre.
Até a indumentária de Lisa Gerrard – longos vestidos (negro, castanho,
azul escuro ou azul claro) com uma gola baixa dourada, de pontas caídas
quase até ao chão – foi a utilizada aqui. No concerto em Portugal calhou
ser o vestido de veludo azul claro, produzindo uma grande presença. Uma
escultural diva em palco.
Do alinhamento musical não surgiram novidades. Esteve de acordo com tudo
o que tem sido realizado pela banda desde o passado dia 9 de Agosto,
data em que a actual digressão mundial principiou no Canadá, poucos dias
antes de «
Anastasis» ser oficialmente publicado.
Para além do desfile integral dos novos oito temas do álbum «Anastasis»,
não faltaram incursões ao imenso espólio da dupla de compositores
Gerrard/Perry.
Seria talvez evitável a interpretação de temas que não são dos Dead Can
Dance. Lisa interpretou “Now We Are Free” da banda sonora que assinou
(juntamente com Hans Zimmer) do filme «The Gladiator» e Brendan
interpretou o clássico “
Song To The Siren”, de Tim Buckley, à semelhança do que já havia feito em actuações a solo.
Não está em causa a qualidade dos temas, nem dos autores, nem as
respectivas interpretações (apesar de, dêem-se as voltas que se derem,
nunca ter aparecido até à data uma interpretação de “Song To The Siren”
que superasse a da ex-vocalista dos Cocteau Twins, Elizabeth Fraser, em
1983/1984, no projecto multi-colectivo This Mortal Coil, do qual os Dead
Can Dance fizeram igualmente parte). Simplesmente roubaram espaço a
temas que poderiam vir do reportório dos próprios Dead Can Dance. Teria
certamente sabido melhor ouvir-se temas como “Cantara” ou “Severance”,
para só evocar dois exemplos.
Excepção feita às duas canções tradicionais grega “
Ime Prezakias” e árabe “
Lamma Bada”
vocalizadas magistralmente por Brendan Perry, apresentando-as e
contextualizando-as previamente. Sobre “Ime Prezakias” Brendan explicou
tratar-se de um velho tema grego (dos anos 30 do século passado) cujo
título em inglês seria traduzível para algo como
I’m a junkie
(sou um vagabundo), acrescentando ainda que, ironicamente nos dias que
correm, ganha um outro sentido, aludindo à actualidade grega em tom de
crítica política:
seems the actual Greece loose a leg in the game of dice.
Sobre “Lamma Bada”, Perry disse tratar-se de uma antiquíssima canção
árabe, escrita em árabe antigo, há cerca de oitocentos anos, no período
em que a cultura árabe ocupava o território da actual região espanhola
da Andaluzia.
We are ancient
As ancient as the sun
We came from the ocean
Once our ancestral home
O Palco das delícias
Exactamente duas horas de actuação. Início às 22:03 e final, após três encores, à meia-noite e três minutos.
Um total de sete músicos em palco, sendo que a maioria do tempo foi
ocupado com seis, já contando com a dupla de autores. A saber: Jules
Maxwell (teclista/corista) que já tinha participado na digressão de
Brendan Perry em 2010; David Kuckermann (percussionista/teclista) a quem
a primeira parte estava entregue mas que foi cancelada poucos dias
antes; Dan Gresson (percussionista); Astrid Williamson
(teclista/corista) que fez parte da segunda parte da digressão de
Brendan Perry em 2010 e ainda Richard Yale (baixista/teclista) que
apareceu em menos de metade do alinhamento do concerto.
O jogo de percussão foi sempre muito forte no som dos Dead Can Dance e
esse facto é notório em palco, com um recurso quase permanente a
poderosos ritmos tribais.
Os sons provenientes, na sua origem, de instrumentos clássicos são
reflectidos através de sintetizadores. Há quem critique esta opção por
parte do grupo, mas o contrário seria muito complicado a nível
logístico, para além de ser incomportável a nível financeiro remunerar
cerca de 40 ou 50 pessoas em palco numa tão longa digressão.
A própria experiência dos Dead Can Dance no passado o demonstrou, nas
digressões de 1985/86 e 1987 em que estiveram presentes nos concertos
todos os músicos necessários para reproduzir fielmente o som obtido nos
álbuns «Spleen And Ideal» e «
Whitin The Realm of a Dying Sun».
Para o público foram momentos inesquecíveis, mas para a banda não
resultou nenhum lucro pecuniário. Mais tarde Brendan justificou essa
opção assumida em não ganhar financeiramente em detrimento de poder
mostrar às pessoas o verdadeiro som da banda que fundou.
Na digressão de 2005 houve uma curta série de espectáculos ao vivo com a
presença de uma orquestra, dirigida por Jeff Rona, mas foram actuações
especiais.
Actualmente Brendan leva consigo para palco uma Bouzouki grega, uma
espécie de Balalaica helénica. Também toca uma aproximação a um Obukano
arabesco (electrificado), para além de tocar tambor na interpretação dos
temas “
Nierika” e “
Opium”. O timoneiro em palco.
Em frente a Lisa Gerrard está colocado, como de costume, um Yangqin
(instrumento milenar chinês, originalmente proveniente da antiga Pérsia)
– nesta digressão são dois –, ou usando outro termo menos técnico, uma
mesa chinesa. É o instrumento clássico por definição do som original dos
Dead Can Dance, tocado por Lisa. Brendan só se ocupa dele para libertar
a cantora de dotes líricos na interpretação do tema “
Dreams Made Flesh”.
O primeiro tema a ser gravado e editado pelos Dead Can Dance, “
Frontier”,
teve como base estrutural a combinação do som deste vetusto instrumento
com a voz de mármore, cristal e safira de Lisa Gerrard. Só por uma
ocasião se viu neste concerto no Porto Lisa Gerrard tocar Yangqin e
cantar em simultâneo, no tema “Agape”.
Brendan adensou ao longo dos anos o seu tom barítono médio/grave, situando-se num registo vocal
crooner,
com um timbre entre Frank Sinatra e Lee Hazlewood, ou como analisou
recentemente um jornalista da revista ‘Uncut’, possuidor de um lirismo
dramático entre Scott Walker e Jim Morrison.
Lisa e Brendan contrastam vocalmente de uma maneira altamente
complementar. Grandes vozes! Quando soam juntas parecem beijar a
eternidade.
Saw the demonstration
On remembrance day
Lest we forget the lesson
Enshrined in funeral clay
History is never written
By those who've lost
The defeated must bear witness to
Our collective memory loss
Os Dead Can Dance nunca tinham actuado em Portugal
Apenas Brendan Perry o fez – a solo – em
Março de 2010, em Lisboa (Santiago Alquimista) e Braga (Theatro Circo). Lisa Gerrard nunca tinha actuado em solo lusitano.
Havia pessoas que esperaram variadíssimos anos por esta ocasião. Houve
quem viesse do estrangeiro para assistir ao concerto dos Dead Can Dance
na Casa da Música no Porto. Gente vinda de Espanha, França e Suécia.
Do país, para além dos residentes locais da cidade invicta e arredores,
havia pessoas que se tinham deslocado de Lisboa, Cascais, Braga,
Guimarães, Coimbra, Guarda, Aveiro, etc.
Para muitos foi o chegar ao fim de uma espera de décadas. A digressão
mundial realizada em 2005, o mais perto que esteve dos portugueses foi
em Madrid.
Houve quem se comovesse de tão forte emoção. “Também choraste?”,
perguntavam-se algumas das pessoas que se conheciam, ainda no interior
da sala, decorridos escassos minutos após o fim do concerto. Parecia que
ninguém queria sair dali de dentro. Foi necessário alguns dos
funcionários pedirem para as pessoas abandonarem a magnífica sala
Suggia, que encheu. Mais de 1.200 lugares lotados desde a manhã em que
os bilhetes foram postos à venda (desapareceram num ápice nesse dia 2 de
Março).
No
foyer era uma procura imensa pelas
t-shirts, posteres e CD’s que o
staff da banda colocara à disposição para venda directa.
Já fora da casa de espectáculos, ainda na escadaria de acesso e nas
imediações, o público permanecia à conversa, numa noite amena sem chuva e
com uma Lua em fase de quarto crescente a ultrapassar algumas nuvens
densas. Alguns fãs mais esperançosos juntavam-se à porta dos artistas na
ânsia de chegar à fala com os protagonistas após tão arrebatador
arroubo musical.
A parte europeia da digressão de «Anastasis» entrou agora na fase final.
Londres na passada sexta-feira, e Dublin neste Domingo.
O regresso à capital do Reino Unido trinta anos depois de Lisa Gerrard e
Brendan Perry terem aterrado no aeroporto de Heathrow, em 1982, vindos
de uma Austrália onde não conseguiam obter o sucesso que procuravam.
Seria em Londres (curiosamente a cidade natal de Brendan Perry) nesse
dealbar da década de 80 do século passado que a dupla viria a alcançar a
projecção que entretanto atingiu no contrato com a editora independente
4AD.
Viviam-se os tempos da grande aventura alternativa discográfica, com
projectos musicais de vanguarda. Os Dead Can Dance estiveram desde então
na proa, fazendo deles a banda mais importante da editora fundada por
Ivo Watts-Russel.
Hoje é o último concerto da actual digressão em solo europeu, na capital
da Irlanda, país onde Brendan Perry vive há mais de vinte anos.
Seguir-se-à uma série de concertos na América do Norte, Central e do
Sul. Depois, já em 2013, a Austrália, onde tudo começou há mais de
trinta anos.
A etapa final da maior digressão de sempre dos Dead Can Dance está
reservada para a Ásia, com datas no Japão em Fevereiro do próximo ano.
I feel like I want to leave
Behind all these memories
And walk through that door
Outside
The black night calls my name
But all roads look the same
They lead nowhere
O alinhamento completo do concerto:
Children of the Sun [do álbum «Anastasis»]
Anabasis [do álbum «Anastasis»]
Rakim [do álbum ao vivo «Toward The Whitin», 1994]
Kiko [do álbum «Anastasis»]
Lamm Bada [canção tradicional árabe]
Agape [do álbum «Anastasis»]
Amnesia [do álbum «Anastasis»]
Sanvean [do álbum ao vivo «Toward The Whitin», 1994; Incluído no álbum «The Mirror Pool», disco a solo de Lisa Gerrard, 1995]
Nierika [do álbum «Spiritchaser», 1996]
Opium [do álbum «Anastasis»]
The Host of Seraphim [do album «The Serpent's Egg», 1989]
Ime Prezakias [canção tradicional grega]
Now We Are Free [da banda Sonora do filme «Gladiator»; disco de Lisa Gerrard e Hans Zimmer; 2000]
All in Good Time [do álbum «Anastasis»]
Primeiro encore:
The Ubiquitous Mr. Lovegrove [do album «Into the Labyrinth», 1993]
Dreams Made Flesh [do album «It’ll End in Tears»; disco do projecto multi-colectivo This Mortal Coil, 1984]
Segundo encore:
Song to the Siren [versão da canção de Tim Buckley]
Return of the She-King [do álbum «Anastasis»]
Terceiro encore:
Rising of the Moon [também conhecido por outros dois nomes:
“Wandering Star” e “Minus Sanctus”; tema inédito levado a palco na
digressão dos DCD em 2005]
As you rise to the very top
Of your mountain
Just remember those
Poor lost souls
On their way down
Música que não passa na Rádio
Apesar dos Dead Can Dance serem uma ausência permanente na Rádio – onde
em tempos ficaram conhecidos por parte de muitos dos presentes no
concerto na Casa da Música – está mais do que provado que a falta de
divulgação radiofónica da música que fazem é desnecessária para encherem
salas e venderem muitos discos. Vive-se hoje em dia uma época
completamente diferente dessa. É a Internet que faz o caminho deixado
vago pela Rádio. E fá-lo das mais diversas formas. Quer seja em
plataformas sonoras como o Soundcloud, o MySpace ou a partilha de
ficheiros em formato MP3, FLAC, AAC (e outros), quer seja através da
junção imagem/som do YouTube, ou das redes sociais como o Facebook ou o
Twitter. A informação circula a uma velocidade vertiginosa via
smartphone e os meios tradicionais (Rádio, TV, Jornais) estão cada vez
mais à margem desta torrente digital.
Na Casa da Música, na noite do concerto dos Dead Can Dance, não estiveram presentes nem a Rádio nem a Televisão.
No entanto, nas horas imediatamente seguintes, já circulavam no
ciberespaço imagens, sons, comentários e reacções ao que ali se tinha
passado.
A dificuldade em classificar num género a música composta pelos Dead Can
Dance não pode servir de desculpa para não passar na Rádio. Pelo
contrário. É exactamente pelo ecletismo étnico que abarca, pela
multi-culturalidade que exala e pelos tempos imemoriais que atravessa
que teria na Rádio um meio privilegiado de difusão. E a Rádio, isto é,
quem a ouve, agradeceria.
Ficaram muitas pessoas a lamentar por não terem podido assistir ao
concerto. Uma única data deixou muita gente de fora e de água na boca.
Para muitos desses fãs, que esperam há tanto tempo por uma oportunidade
de ver os Dead Can Dance ao vivo em Portugal, ainda não foi desta.
Houvesse mais datas em Portugal e as salas encheriam na mesma, como têm
enchido quase todas as que os Dead Can Dance visitaram até agora.
Pouco importa se seria no Porto, ou em Lisboa, Braga, ou Guimarães. A
distância não é o problema maior para os apreciadores de longa data.
Resta agora a esperança de, segundo o próprio Brendan Perry afirmou em
recente entrevista, haver em 2013 ou 2014 um novo álbum e depois, quem
sabe em 2014 ou 2015 uma nova digressão mundial que passe por cá outra
vez.
A imagem do álbum «Anastasis» dos Dead Can Dance mostra um campo de
girassóis mortos, queimados pelo Sol. Um campo de girassóis mortos, mas
de pé. A metáfora perfeita para a “ressurreição dos vivos”, como
intitulou o jornal «i» na passada quarta-feira.
If I were not a physicist, I would probably be a musician. I often
think in music. I live my daydreams in music. I see my life in terms of
music.
Albert Einstein